As árvores que choram

Por Gustaaf Winters

Introdução:

A notícia se espalha rápido e cercado de mistérios. Um fenômeno está acontecendo na região. “Deve ser coisa divina mandando algum recado”: espalha uma. “É Maria chorando”,  diz a outra. O padre alardeia que uma “água benta” está jorrando de uma árvore. Um “bispo” já estaria vendendo as “Lágrimas de Cristo” para afastar o capeta dos infiéis. Fofocas, claro!. Jornalistas, fotógrafos, repórteres, TV, gente a cavalo, charrete, de bicicleta e mesmo peregrinos correndo no meio da poeira que leva ao lugar. A cena impressiona: a beira de uma estrada, um chão todo molhado sob um “cambará do campo”, uma árvore nativa comum na região cujos ramos cheios de uma espuma branca pingavam gotas ao chão. Beatas ajoelhadas rezando o terço. Gente se acotovelando para se abençoar com os pingos gelados caídos da árvore. Emissoras exagerando o fenômeno entrevistando os que estavam em transe.

As árvores possuem motivos de sobra para chorarem prantos de dor, porque a cada minuto some, só na Amazônia, quatro campos de futebol em florestas milenares. O homem, que veio do macaco, não tem mais o rabo preso com as árvores e traça um rumo suicida com a fúria das moto-serras.

Longe de comentar sobre a crença de alguns, há lógico, uma explicação científica para a ocorrência desse “milagre”.

Esse “choro” pode acontecer em qualquer planta: Sibipirunas Acácias, Figueiras, Maricás, Mangueiras, Parreiras de uva, Capins e até ervas empregadas na gastronomia. O tal fenômeno sobrenatural pode ser provocado por diversas “cigarrinhas”, como por alguns Cercopídeos, por exemplo. Uma delas é a Philaenus spumarius, a “cigarrinha do lenho”. Veja a cara dela.

A cigarrinha adulta
A ninfa da cigarrinha

 As Philaenus spumarius são quase invisíveis a olho nú e secretam uma espuma viscosa que sai do...como direi...do “escapamento” delas. Em seguida ela solta uns “puns” para formar bolhas, donde se escondem as ninfas, protegendo as dos predadores. Elas possuem um aparelho digestivo esquisito, que leva num só tubo, a boca ao “fiofó”. Quer dizer, sugam o lenho, conhecido botanicamente como xilema ( é ela que leva a “xeiva pra xima”) para os galhos e as folhas. Neste mesmo instante, mijam as tais “lágrimas divinas”.

A infestação, às vezes, pode ser tão grande que a espuma provocada pelas ninfas, sob a copa das árvores, pode encher baldes com “água”, num dia só.

A formação das bolhas
A secreção da espuma
Inundação sob a copa de uma árvore atacada pela “cigarrinha do lenho”.
Espuma viscosa protegendo as ninfas

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